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Aos Colegas do Moderno, 06/04/2012

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Esta semana, entre o fim de março e o início de abril de 2012 (que fique bem claro o ano, principalmente), um pequeno grupo de ex-colegas do Colégio Moderno assaltou-me à mente, bem quando o avançar da maturidade tende a corromper e corroer as boas memórias juvenis e que, por mais que se tente mantê-las, é sempre mais difícil porque aquele período tende a ficar menor e menos importante frente à vida adulta.

Acredito, porém, que as boas recordações e as alegres memórias são por demais preciosas para simplesmente se apagarem e são partes indeléveis do que viemos a nos tornar, uma verdadeira viga da própria personalidade de cada um(a) e, quanto mais gostosas são, melhor para a nossa vida a animação dessa boa parte da nossa juventude.

Por isso é que nunca esqueci e faço sempre um esforço para lembrar:

  • da batatinha completa, com ketchup, maionese e queijo ralado;
  • do lanchão da Camões;
  • da abertura do ano letivo, com a chamada por turma (todo mundo queria saber a distribuição dos alunos);
  • das tias-monitoras (Deus tenha a maioria delas, acho eu, já eram velhinhas ali);
  • dos(as) mestres(as) – Neivaldo (matemática), Elza (geografia), Francisca (Ciências) (esta casou com o pai do Armando Hage. Desculpe, amigo, mas são mais de 20 anos de segredo. Chega, né?!), Paulo (Ed. Artística)… ainda tinha o Zecão (Ed. Artística), a Balbina (Geografia), Ieda (história), Jaime (química), … aff…
  • dos coordenadores – Reinaldo era um deles, Maria Célia era outra;
  • da diretora Marlene Vianna, que sempre assinava as suspensões e expulsões do ano;
  • do carnê de pagamento mensal – esverdeado e marrom (sem internet à época);
  • o cacete da Agenda do Moderno, sem ela não entra, com ela não sai!!!
  • das camisas assinadas e da alegria de nossos pais por mais uma jogada fora;
  • do banheiro das meninas ao lado do dos meninos e o mundo sempre algo mais simples;
  • da festa de São João, em que o ponto alto era a quadrilha do convênio (meninos e meninas de roupa trocada);
  • dos bad-boys (brinco na orelha ESQUERDA, estilo George Michael, com crucifixo – muito macho!!!), pochete na cintura, cara de mau e um cigarro escondido era o que precisava… Piercing… não tinha nem tecnologia pra isso, vixe!!!
  • da antecipação pra ser do convênio, usar jeans azul, sapato e camisa esportes e a famosa “bata” distintiva dos convênios CA, CB, CE e CH, além dos preparativos militares;
  • das provas finais, recuperação e uma temida reprovação – média necessária para passar direto 8,00 e mínimo de 32,00; prova final caía para 7,00 e 35,00 e recuperação 6,00 e 36,00.
  • das épocas de bombinha nos banheiros;
  • do Caderno das Flores do O Liberal (em maio) e as debutantes na Assembleia Paraense (fala sério… algumas já iam fazer 20 anos ali);
  • meninos – jogar futebol; meninas ginástica – até o dia em que a gente descobriu onde elas faziam… uma janelinha marrom de metal e estreita era bem concorrida… depois meninos pra debaixo do ventilador e meninas com nojo da gente… rsrsrsrs
  • do Armando (mantena); Elle (coquinho); das Adrianas (toda a sala tinha pelo menos uma! – as da nossa eram Sobral e Resque – que, aliás, eu vi numa carta para a revista do Cascão ou Cebolinha, ela e a irmã mandaram uma carta que foi publicada); Mircilene (sempre amiga – me lembro uma vez que ela e o Fabrízio (xuxo) se trombaram, derrubando a pipoca e tiveram que varrer a sala – ficaram sem se falar, inclusive); Maurício Sanjad (eu e o Armando chamávamos de iogue, na época metaleira porque a gente não via o rosto dele); o Marlus; a Samantha (que casou com o Bittencourt – da PM); a Téssia; a Priscila Alencar; a Renata (que vivia pra cima e pra baixo com a Patrícia); o Fernando Setti; o Alexandre, que sentava no fundão da 705; a Patrícia Bentes (que eu e o Armando chamávamos papita e eu nem sei o por quê); o Makoto (e sua infindável jornada diária para Santa Izabel do Pará); o Fábio (Mun-há ou morte lenta) – CDF da turma; o Rômulo Augusto (filho da Rosa); o Olavo (que não era da 705, mas era beeem conhecido por lá); a Roberta Mendonça (sempre muito alegre, fui para uns dez aniversários dela); Valéria (fui pros quinze anos dela); da Andréa (Supermercado Líder); Gene Kelly (por causa dela, 90% dos alunos da classe souberam a existência do dançarino Gene Kelly, ela trouxe cultura.. brincadeira, beijos, Gene)… ufa, se esqueci alguém, desculpem, é que o coração é um labirinto nem sempre fácil de se percorrer.

Espero que isto ajude a lembrar e a reavivar a memória de todos nós.

Um grande beijo,

Felipe Diniz (o filho da D. Ana – escudeiro do BatNelly)

P.S. Me digam uma data que eu vejo se pego um vôo praí…

Saudades

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De Um Virginiano aos Virginianos (Maceió – AL, 21 de setembro de 2010) 21/09/2010

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Aos meus amigos e inimigos, conhecidos e desconhecidos, irmãos no signo de Virgem, nascidos entre os dias 23 de agosto a 22 de setembro, que acreditam ou não em horóscopo, mas que nasceram próximos no calendário um dos outros e que isto queira nos dizer algo.

Bom, gostaria, inicialmente, como ponto de partida desta carta, dar os parabéns para, bom… melhor tirar o “dar”, afinal dar fica estranho. Então, quero congratular a minha colega… ixi, não é bem colega, colegas são, para mim, uma classe* de pessoas que convivem com você no trabalho, a Iara, que faz aniversário no dia de hoje. É uma colega de quem gosto muito, portanto, acho que ela estaria na classe dos “bons colegas” (tá começando a ficar longo o parágrafo, melhor recomeçar).

Bom, gostaria, inicialmente, como ponto de partida desta carta… hã, ihhh! Já não é mais o ponto de partida nem o início desta carta. Então, quero, a partir deste ponto da carta, congratular a minha boa colega Iara, que como toda boa virginiana… tsc, ai, ai, isso pega mal além de repetir o”boa”, melhor trocar para “típica”. Quero, a partir desse ponto da carta, congratular a minha boa colega Iara, que como toda típica virginiana, apresenta, em sua natureza humana… (o parágrafo já está do tamanho do outro, peraí!).

Quero, a partir desse ponto da carta, congratular a minha boa colega Iara, que como toda típica virginiana, apresenta, em sua natureza humana, a multiplicidade das coisas que são boas… mas o que ela vai entender por “natureza humana”? Vai me achar, no mínimo, pedante; melhor trocar por algo como “faz muitas coisas boas” e rezar para ela não achar que eu estou achando que ela não vai entender o “natureza humana”… ué! Ela nem vai saber que eu ia escrever de outra forma. (droga! Sétima linha!)**

É que virginiana é analítica e tem bom senso, vai que ela percebe, vai que ela tá lendo pensamentos agora. É formiguinha, se encrencar com algo, vai ficar encaraminholando sobre a densidade gasosa de Júpiter e mercúrio é ciumento pra caramba. Começo a achar que não deveria ter começado a escrever para a Iara… lá vem a sétima linha… Não consigo dizer nada de útil, mas esta carta não é para todos os virginianos?! E se não gostarem do meu serviço, isto me incomoda. E se se voltarem contra mim?! (tenho que parar aqui! 7ª linha).

Tenho que me resumir para que não fiquem sabendo mais do que eu quero que saibam, os virginianos e o mundo…. vão querer me classificar, e o pior, pode até fazer sentido, pois já os sinto me considerando como previsível demais, podem, inclusive, quererem me colecionar em suas classificações infinitas e terríveis. Tenho que me resumir e acabar na sétima linha para ficar, no mínimo, padronizado, mas como resumir um virginiano congratulando virginianos, de um modo virginianamente aceitável. Vou tentar…

PARABÉNS!

Ufa!

Abraços,

Felipe Diniz

 

* Classificação de amigos (tenho que prestar um serviço de utilidade pública aqui, se não, nem vejo sentido nisso tudo)

            Grau de Intimidade: Altíssima (cama, mesa e banho)

Amor

            Grau de Intimidade: Alta (mesa e banho, este quando minimamente sujo ao virginiano)

Melhor amigo(a)

Superamigo(a)

Grande Amigo(a)

Grau de Intimidade: Média (mesa de casa, quando se prova que não bagunça e limpa os pés – e não critica classificações e sistematizações alheias)

Amigão (ona)

Bom(a) amigo(a)

Amigo(a)

Grau de Intimidade: Baixa (mesa em bares/restaurantes/similares limpos e arrumados)

Bom(a) Colega

Colega

Conhecido(a)

 

** Aprendi, no colégio, que um “bom” parágrafo deveria ter sete linhas, fiquei anos obcecado com isso. Virginianos, vejam como não se é tão solitário como se pensa por aí!

O Rato e o Processo 10/09/2010

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(para O.Y.H., com carinho)

Dentre os muitos casos que sabemos ocorrer nos locais de trabalho, existem aqueles que pela sua essência, pela sua unicidade e pelo divertimento do seu simbolismo, merecem um devido destaque no registro do “memoriol” do serviço público brasileiro.

Tenho uma querida amiga, a mesma a quem dedico esta crônica, que me contou a seguinte história, que tem direito ao registro fotográfico do acontecido, ao qual atesto a fidedignidade para que não restem dúvidas acerca do episódio.

Esta colega trabalha em uma coordenação orçamentário-financeira de uma secretaria em um dado ministério, que como unidade de administração direta, é um mostro burocrático, atabalhoado e soterrado, de forma diretamente proporcional entre o volume de papel e as normativa que todo cristão tem que seguir pela “santa” administração pública.

Bom, tal colega, obreira como poucos, introduziu-me o caso de forma pouco usual. Acostumada a ficar até tarde da noite para que a máquina administrativa rodasse, a colocar os azeites nas engrenagens certas, sozinha, pelos corredores silenciosos do agito diário, começou a ouvir estranhos, porém inquietantes barulhos, que ressoavam-lhe muito mais altos na vastidão daquele vazio setor.

Como noventa e nove porcento dos brasileiros, a colega assustou-se com a possibilidade da paranormalidade estar se fazendo presente e se preparando para mais uma vítima. Não, leitor! Não julgues a minha colega, com aquele sorriso hipócrita de um falso cético. Coragem! Ponha-se no lugar dela! Imagine-se numa noite, tarde, pagando um karma qualquer que você não sabe, em uma unidade de um ministério, lendo e ajustando toneladas de processos do ponto de vista orçamentário e cansado, é evidente que todas aquelas estórias de fantasmas dos auditores do TCU perseguindo maus ordenadores de despesa do passado para castigos eternos ganharão contorno, preenchimento e vida para qualquer coitado. Dêem à minha colega o devido crédito pela sua coragem, por favor.

Bom, de qualquer forma, este conto acabou tendo uma guinada, que Kafka iria, no mínimo, apreciar. Num dos dias em que minha amiga trabalhava, o autor dos malditos barulhos, muito longe de ser uma alma infernal a perseguir incautos gestores era, de fato, um rato. Isso mesmo, um Rattus nojentus, que saíra, só Deus sabe o porquê, do seu esconderijo para desespero das pessoas em volta.

Como sempre bem desconfiei, com relação ao gênero, frágil mesmo sempre foi o homem… e o rato, às vezes a gente até se confunde… o homem e o rato, o rato e o homem… bom, a questão foi que a aparente frágil coleguinha, muito “kafkaniamente”, mostrou àquele rufião como uma gestora se livra de um incômodo: deu-lhe uma processada na cabeça que, da vida, o rato deve ter levado só a lembrança do dígito verificador do processo. O rato foi devidamente processado pelo maquinário administrativo, vindo ao cabo de forma instantânea e sem saber a razão, tal qual muitos objetos processuais mesmo. Eis a foto do corpo estendido para comprovar e aqui vão as minhas conclusões:

  • fantasmas de auditores existem, mas não ficam chegando muito perto do trabalho novamente, devem preferir perseguir quem lhes deu trabalho, na vida ou na morte;
  • só quem chega perto de unidades orçamentário-financeiro para sacanear são os ratos, o resto corre; e
  • nunca mais chego perto das gestoras, muito menos as que se armam de processos, um dia me confundem e eu acabo dentro de um…

Abraços,

Felipe Diniz

Temporário

Imagem Temporária

Discurso Reverso 31/07/2010

Posted by zinidepilef in Humor.
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Dentre a minha literatura banheral… isso mesmo: literatura banheral. Tem gente que nunca ouviu falar, mas é aquela literatura que, variando de pessoa para pessoa, é usada para o fim de leitura nas prazerosas horas solitárias de um banheiro. Parece até um tabu falar disso, eu vou escrever logo sobre fascinante tema. Voltando, dentre a minha literatura banheral, descobri uma obra-prima para as horas de labor da Natureza, a qual, de acordo com o Laureano, meu avô, não poderia ser apressada, nem pela própria mulher, quem dirá pelo Mundo; que é o Livro dos 100 Maiores Mistérios do Mundo, de Stephen J. Spignesi, da Coleção 100, livro muito bom para o relax, e o melhor, dá certinho, porque é um labor por um mistério de duas ou três páginas… e o conhecimento aumenta.

Dos cem mistérios, confesso que muito poucos me são desconhecidos, mas vi um digno de nota: o discurso reverso. O discurso reverso seria uma ou mais frases “escondidas” em um discurso, elaboradas pelo subconsciente humano, logicamente ligadas ao tema falado, mas que não estariam sob o controle consciente do orador, trazendo um input de informação a mais naquela comunicação. Algo assim: na famosa frase de Neil Armstrong quando desceu da Apollo 11, em 20 de julho de 1969: “That’s one small step for [a] man, one giant leap for mankind.”, “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.” Quando tocada de trás pra frente, você ouviria: man will space walk, que seria: homem irá andar no espaço. Bom, tem gente que ouve: man will space waw e tem gente que não ouve nada.

Visitei o sítio eletrônico do assunto, pois me encontrava em horário oficial de ócio produtivo, o www.reversespeech.com para saber mais sobre objeto tão interessante e misterioso da comunicação humana.

O pioneiro do assunto é o australiano David John Oates, que se dedica a estudar o tema há 20 anos. Em sua página na internet, informa que o ato pode ser um tipo de Detector de Verdades. Se uma mentira é dita, a verdade pode ser revelada no reverso da sentença, o mesmo acontecendo com fatos pertinentes a um tema ou um motivo escondido na fala.

Apesar de estar num campo de experimentação e prescindir ainda de embasamento científico, principalmente da neurolinguística, bem como da neurologia e da fisiologia, já é usada como ferramenta de investigação criminal pela polícia do Oregon e em reuniões de negócios com relativo sucesso, de acordo com Oates.

Ficção científica? Não sei, mas também achávamos que falar com uma ou mais pessoas que estão do outro lado do mundo quase em tempo real, com imagem e som perfeitos também era, isso até uma década atrás. Junho passado, um crime em andamento, em Praia Grande, litoral paulista, foi denunciado por um parente no Japão que estava on-line vendo sua família ter a casa invadida. A polícia debelou a ação e prendeu dois dos assaltantes.

Gosto de imaginar que, se for verdade, teremos, no Brasil, uma infinidade de aplicações. Já que a mentira, benfazeja inibidora de muitos conflitos sociais, poderia estar com os dias contados. Mas também, seria uma arma e tanto.

Alguns Exemplos do Uso (Fictício) do Discurso Reverso no Brasil:

– na política:

1) Discurso Normal:

“É claro que a sociedade verá esses abusos cometidos aqui no Congresso apurados até a última instância.” (político)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc… ah,ah,ah,ah….bando de mané… sccrrrrrriiiccc… mas não me pegam, mas nunca!….sccrrrrrriiiccc”

2) Discurso Normal:

“Nunca vi esse dinheiro.” (político)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc…viram a cueca… sccrrrrrriiiccc…. esqueceram minhas meias…. sccrrrrrriiiccc”

– no futebol:

Discurso Normal:

“Sei que temos capacidade de chegar às semifinais.” (técnico)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc… tá doido?!… sccrrrrrriiiccc…nem eu torço pro meu time….sccrrrrrriiiccc”

– nas relações:

1) Discurso Normal:

“Oi querida. Cê tá linda. Adorei teu visual” (amiga encontrando outra)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc… credo, engordou….tá acabada… sccrrrrrriiiccc…o casamento já era….sccrrrrrriiiccc”

2) Discurso Normal:

“Mãe, me dei bem no colégio.” (joãozinho)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc…reprovei….mifudireitinho!…..sccrrrrrriiiccc”

3) Discurso Normal:

“Foi bom pra você? Pra mim, foi” (mulher)

Discurso Reverso:

“sccrrrrrriiiccc… incompetente….sccrrrrrriiiccc”

Bom, será certamente um mundo diferente, mas também gosto de pensar que inventaremos novas formas de mentir, pois, certamente, não tardaria para se descobrir a contra-mentira ou a mentira disfarçada no reverso. Pois para cada ação…

Abraços.

Felipe Diniz

(MPP) Memoriol Público-Privado. 2 ‘Lever de Jour’ e Bolinhos de Chuva, Amanhecer e Entardecer, Nara Leão e Mamãe 10/07/2010

Posted by zinidepilef in Humor, Outros.
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No Brasília Shopping estava eu a passar o dia de ócio produtivo encarando um desafio sinistro: me encarava da altura da mesa, bem à minha frente, um doce maravilhoso da Tortteria di Lorenza: um Lever de Jour , traduzindo, era um doce com uma cobertura caramelizada de maracujá, onde em seu rombudo interior descansava uma geléia não muito doce de framboesa cercada de chantilly por todos os lados, tal qual o núcleo de um planeta ou o centro de uma espaçonave pousada gentil e delicadamente em um assento de pão-de-ló. A questão não era se eu iria comer ou não aquilo, mas como se daria e a que velocidade. De maldade, ainda havia um chocolate branco em cima dele, como uma placa de anúncio alienígena dizendo: “Gostosura”.

A coisa tava tão boa que no fone de ouvido me chegava a Nara Leão me sussurrando Desafinado, numa nada desafinada voz, depois passou para Barquinho e por aí fomos passeando por outras canções comendo juntos aquele doce para terminá-lo em Joana Francesa. Se o repertório musical fosse mais extenso, eu não comeria aos pedaços, eu lamberia a Nara e ouviria o doce, ou algo assim, talvez vice-versa.

Nessa viagem que produziram a voz da Nara e o açúcar com bastante afeto de alguma santa doceira, inclusive, comecei a lembrar pequenas estorinhas da minha infância que só a combinação de sentidos é capaz de nos evocar. São memórias que nos surgem do nada, quando menos se espera.

Me lembrei, então, de dias em que chegávamos, eu e meus irmãos, da extinta e saudosa Escola Poranga Jucá, em Belém, e mamãe estava em casa a preparar alguma surpresa pra gente. Um desses dias, particularmente, ficou bem registrado em minha mente.

Era uma sexta-feira, voltávamos, como de costume, às seis da tarde, dia em que houvera chuvarada, ou melhor, um “toró” daqueles, o dia escureceu mais cedo e a temperatura baixou para uns agradáveis menos de vinte e cinco graus (acreditem que, para belenenses, isto parece inverno e com direito a mais uma cuia de tacacá bem quente pra afastar o sereno da garganta e do peito).

Chegamos no táxi do seu Luís, um contratado de casa, para nos levar e nos trazer diariamente. Era um fusca laranja, tipo oitenta, com direito a uma manopla de marcha enfeitada com um sirizinho em uma redoma de acrílico, fita de Nossa Senhora de Nazaré e um terço no retrovisor central, além daquele taxímetro antigo, de corda, com as bandeiras de Livre, 1 e 2.

Saltamos todos do táxi e da vala que, com a chuva, ficava mais larga que o normal e, como quase tudo é plano em Belém, ficava, para crianças, bem larga mesmo. Todos com o uniforme do Poranga, calça comprida de pano azul, sem uma tonalidade bem definida, só não muito claro. Camisas brancas, finas, de botões brancos, transparentes, cerzidos com linhas brancas, sérias, sóbrias, sem detalhes. Se fosse dia de educação física, um short azul, de algodão, fino, pra moleque mesmo e uma camiseta também de algodão, com gola e braçadeira azuis. Às vezes, só uma camiseta fina, toda branca. Nenhum dos uniformes carregava sequer o emblema ou o nome do colégio. Todos, porém, usavam o sapato conga azul com meias brancas finas. A simplicidade do Poranga, a escola do aviãozinho, era uma das suas marcas. Um dia escreverei sobre ele, com certeza.

Saltando a vala, abríamos o portão, já gritando “Cheguei!!!” ou “Chegamos”, dependendo, é claro, do espírito coletivo de cada um, quando já antevíamos a atividade da casa, pela porta da frente, apenas quatro metros a partir do portão, ela quase sempre ficava aberta.

Saudações do fila-dinamarquês Bóris “Escalorft”(sic) (com saudades, já se foi), que se levantava no pátio coberto, onde ficava a dita porta de entrada e, quando passávamos por ele, já sentíamos a surpresa que era a mãe Ana em casa. Cheiro do seu indefectível cigarro, cujo maço ficava na mesa de madeira da sala de janta. Mesa de madeira de lei, escura, grossa, expansível, com cadeiras de espaldar alto e estreito, da mesma madeira para fazer o conjunto, com uma toalha de flores por cima, em tonalidade bem clara, vermelha.

Corríamos por ela a casa inteira, largando cada um sua mochila e lancheira, em direção à um chiado meio conhecido e um cheiro bem familiar vindo do fundo da casa, onde ficava, a cozinha; o antepenúltimo ambiente, só antes da lavanderia e de um quarto.

A mãe estava lá. Fritando algo. Um cigarro na mão esquerda e uma escumadeira na direita, jogando algo em um escorredor de macarrão forrado com um papel absorvente ao lado, na pia, além de uma assadeira em cima na mesa ao lado de uma ou duas, agora nem lembro mais, de garrafas de cerpinhas. Eram bolinhos de chuva.

O jogo poético, simples dos bolinhos de chuva naquele dia me encantou bastante. Havia mágica no ar. A eletricidade da chuva me parecia ter sido, de alguma forma, transferido àquele quadro, como se a mãe e o tempo tivessem feito um pacto sobrenatural, nada coincidente, de nos presentear com o frescor da chuva, numa tarde de sexta-feira, a mãe em casa prepararando uma coisa tão simples e gostosa como bolinhos de chuva.

Não me lembro como comemos os tais bolinhos, mas é normal os gordinhos pularem estas partes, pois normalmente ficam algo que robotizados no momento, mas me lembro depois de nós cinco, numa rede tamanho família, no segundo quarto do corredor, nos balançando, olhando para o teto, onde havia uma clarabóia, ouvindo o vento e cantarolando músicas com o nome de cada um de nós até mais tarde, eu estava numa das pontas, disso eu me lembro.

Ops, acabei de ver que o meu doce “Amanhecer” acabou e que o barquinho da Nara já se foi há muito tempo. Tsc! Não falei que eu ficava robotizado nessas horas…

Abraços,

Felipe Diniz

Dias dos Namorados 28/06/2010

Posted by zinidepilef in Românticos.
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Ah, doze de junho, doze de junho, eu te perdi. Andava olhando as sombras do chão, que esqueci as luzes no céu. Entretanto, extemporaneamente, atrevo-me aqui a fazer uma declaração especial aos enamorados….

Topei hoje, dia 28 de junho, duas semanas após o dia dos namorados no Brasil, com alguns trechos de cartas de amor entre duas pessoas famosas, que não vi traduzidas ainda para o português desde que vieram à luz: a eterna Elizabeth Taylor tornou públicas as cartas de amor que recebia de Richard Burton. Isto em 1 de junho deste ano.

Apesar de terem feito alguns pares românticos no cinema, como Cleópatra e Marco Antônio, no famoso épico Cleópatra, de 1963: Burton e Taylor tiveram um dos casos de amor mais badalados de Hollywood, com direito a 20 anos, dois casamentos, passos, descompassos e, felizmente, um bom registro do que não foi um negócio ou uma conveniência de estrelas.

Dei uma rápida pincelada em alguma coisa que escapou pela rede, já que o amor e o romantismo sempre foi matéria da sétima arte. Espero que aproveitem.

“One of these days I will wake up — which I think I have done already — and realize to myself that I really do love. I find it very difficult to allow my whole life to rest on the existence of another creature. I find it equally difficult, because of my innate arrogance, to believe in the idea of love. There is no such thing, I say to myself. There is lust, of course, and usage, and jealousy, and desire and spent powers, but no such thing as the idiocy of love. Who invented that concept? I have wracked my shabby brains and can find no answer.”

“Qualquer dia desses, eu irei acordar – o que eu acho que já fiz – e descobrirei que eu realmente amo. Acho muito difícil passar a minha vida inteira ao lado de outra criatura. Acho igualmente difícil, por causa da minha própria arrogância, acreditar na idéia do amor. Não existe tal coisa, digo a mim mesmo. Existe a luxúria, claro, a manipulação, o ciúme, o desejo e o poder do dinheiro, mas não existe tal coisa como a idiotice do amor. Quem inventou este conceito? Eu tenho trabalhado a minha cabeça idiota e não acho resposta.”

“You are as distant as Venus—planet, I mean—and I am tone-deaf to the music of the spheres.”

“Você é tão distante quanto Vênus – digo, o planeta – e não sou bom de ouvido para a música das estrelas*”

“Although I was not unhappy, I was the happiest with you”

“Apesar de não ter sido infeliz, eu era mais feliz com você”

“I am forever punished by the gods for being given the fire and trying to put it out… The fire, of course, is you.”

“Eu serei punido pra sempre pelos deuses por ter recebido o fogo e tentado apagá-lo … Claro que o fogo é você.”

“You must know, of course, how much I love you. You must know, of course, how badly I treat you. But the fundamental and most vicious, swinish, murderous, and unchangeable fact is that we totally misunderstand each other … we operate on alien wavelengths … I love you and I always will. Come back to me as soon as you can.”

“Você deve saber, claro, o quanto eu te amo. Deve saber, com certeza, o quão mal eu te tratei. Mas o fundamental; o que mais nos viciou, o que nos matou, o que acabou com a gente de fato foi que nunca entendemos um ao outro… ficávamos em ondas diferentes… eu te amo e sempre e amarei. Volta pra mim assim que puder.”

“If you leave me, I shall have to kill myself. There is no life without you,”

“Se me deixares, me mato. Não há vida sem você.”

“You are probably the best actress in the world, which, combined with your extraordinary beauty, makes you unique”

“Você é provavelmente a melhor atriz do mundo, o que, combinado com a sua extraordinária beleza, faz de você única.”

“When, as an actress, you want to be funny, you are funnier than W.C. Fields**; when, as an actress, you are meant to be tragic, you are tragic.”

“Quando, como uma atriz você quer ser engraçada, você é mais engraçada que W. C. Fields**; quando, como uma atriz, você quer ser trágica, você é trágica.”

“I know I’m a terrible liar sometimes, but please believe that I have never betrayed either in word or deed the physical you or the mental you. I simply love you too much.”

“Minha querida, eu sei que às vezes sou um tremendo mentiroso, mas por favor, acredite que nuca a traí nem em palavras, nem fisicamente ou mentalmente. Eu simplesmente amo você demais.”

Pendulumed [sic] like an infinitely desirable clock. How [to] watch the puritanical face relax into slow lust? How to watch that watch catch its breath and, for a speck of a speck of a millionth of a second, become the animal that all men seek for in their women?

“Pendulado(sic) como um relógio de desejo infinito. Como olhar a face puritana relaxar em lenta luxúria? Como assistir a este relógio tomar fôlego e, por uma partícula de uma partícula de um milionésimo de segundo, se tornar o animal que todo homem procura em sua mulher?”

‘In my poor and tormented youth, I had always dreamed of this woman. And now, when this dream occasionally returns, I extend my arm, and she is here … by my side. If you have not met or known her, you have lost much in life.’

Na minha pobre e atormentada juventude, sempre sonhei com esta mulher. E agora, quando este sonho ocasionalmente retorna, eu estico meu braço e ela está aqui… ao meu lado. Se você ainda não a encontrou ou não a conheceu, você perdeu muito na vida.”

“I’ll leave it to you to announce the parting of the ways while I shall never say or write one word except this valedictory note to you. Try and look after yourself. Much love.”

“Eu irei deixar que você anuncie o nosso rompimento enquanto eu jamais direi ou escreverei nada exceto esta nota final pra você. Cuide-se. Com muito amor.”

Fontes:

http://www.time.com/

http://www.dailymail.co.uk

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* Aqui, Burton fez um joguete com o plural spheres, que é uma palavra com múltiplos significados: astros, planetas ou estrelas. Deaf-tone é uma pessoa que escuta, mas tem dificuldade de distinguir os tons musicais. No Brasil, é a pessoa “ruim de ouvido” (N.T.).

** W. C. Fields, pseudônimo de William Claude Dukenfield, (Filadélfia, 29 de janeiro de 1880 — Pasadena, 25 de dezembro de 1946) foi um humorista e ator estadunidense. No cinema, foi um dos criadores mais inventivos da comédia burlesca e era conhecido por seu mau humor (Se eu tivesse um milhão, 1932; Six of a Kin, 1934).

(MPP) Memoriol Público-Privado. 1 Primeiro Encontro com Manuela 07/06/2010

Posted by zinidepilef in Humor.
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Calourão da UFPa, tinha acabado de entrar para o curso de Bacharelado em Ciências Biológicas, cabeça raspada, dois brincos na orelha esquerda, porque esta sim, era a de homem, uns óculos que saudavam uns nove graus de miopia, isso mesmo, uma ameaça ambulante à segurança pública, comecei essa etapa da vida, como todas as outras: primeiro, a empolgação pelo estudo – carreira em primeiro lugar, briga pelas melhores notas, bolsa, Pesquisador, a CONQUISTA DO MUNDO (pfffffff!!!!).

Este pensamento me guiou a tentar fazer amizade com quem eu achava que seria boa companhia, ou seja, quase ninguém, exceto o Fábio, que eu achava um cara que tinha pinta de inteligente, óculos na cara, timidez saltada aos olhos, ponderação no falar, era o estigma do nerd que eu precisava para montar a Nerd’s Gang da minha época.

Na minha entrega de documentos, em um auditório onde, por causa do nervosismo em excesso, deixei cair todos os meus documentos, uns míseros vinte e cinco, pra começar a vida acadêmica. Uma mulher (que fique claro, leitor, que não é convencimento meu, foi ela quem me disse depois) já havia decidido meu destino. Viesse a se meter a besta de ser “o cabeça” que eu quisesse ser, mas meu destino iria ter que se cruzar com o dela.

Como eu me achava “o macho caçador da espécie”, sempre fui “muuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiittooo” atento aos sinais românticos emitidos pelas mulheres, por mais sutis que fossem: Manuela começava a sorrir pra mim e eu achava que era pra tirar onda com a minha cara de nerd (e cá entre nós, um mulherão, e eu, como descrito acima, tinha mó cara de quadrado mesmo); a amiga Ana Rita começou a jogar na minha cara que ela tava a fim de mim e eu achando que era só de graça (a Rita tinha um charme também, achei que era farra da dupla com o geek pego pra pato aqui); Manuela piscava e eu achava até que fosse cisco no olho; um dia, a Ana Rita empurrou (literalmente) a Manuela em cima de mim durante uma visita para conhecermos a Biblioteca Central da Universidade, quase derrubamos uma prateleira; achei que fosse molecagem e que as duas até poderiam estar querendo ser amigas. Até que, na primeira aula de laboratório, a Ana Rita se levantou e me entregou um bilhete, que guardei por quase uma década, da memória nunca se apagou: “Te achei uma gracinha. Me liga: 233.1305. Manuela”, e tinha um beijo com um batom vermelho sem-vergonha-ousado-fogo-paixão, o que atinou “o tal do meu instinto caçador” e pensei, entre uma amostra e outra, “essa moça quer fazer amizade mesmo”. Ainda perguntei pro Fábio o que ele achava, precisava de uma estratégia masculina na mesa, é claro, era um assunto de Estado, a decisão tinha que ter ares de registro, e eis a ponderação do meu pretenso amigo nerd:

– Pô, seu Felipe, vá lá, ligue pra gata, que ela tá é a fim do senhor….

Liguei no mesmo dia e depois de uma longa conversa de cinco minutos, marcamos de nos encontrar no dia seguinte, após a aula, na esquina da praça Batista Campos, às duas, que esperaríamos juntos pela chuva das quatro e não tinha o pedágio para bandidos instituído nos dias de hoje.

Lá estava eu, banhadinho, mas suado pra cacete, exatamente às duas da tarde, como todo bom candidato em campanha de início de namoro e… nada. Simplesmente nada. Deu duas e meia e.. nada. A chuva, comandada por São Pedro e seu assecla Murphy, resolveu que tinha que cair às duas e quarenta e eu… lá, o paladino da crença na gostosa da sala que dá bola pro nerd, o otário em pessoa, já pensando em uma turma enorme de desconhecidos rindo da minha cara, o alimento do clássico da Sessão da Tarde juvenil americana de sempre, e o pior de tudo, molhado e puto da vida.

Quando a chuva parou, me sentindo o mais completo palerma, mas disposto a voltar pra casa e tentar salvar a honra, dizendo de tudo menos que a tal moça do encontro deu o cano, um último ônibus da viação Tamoios vai para a parada e resolvo ver quem vai descer, tipo pressentimento misturado ao desespero de causa. Bom, pelas curvas, é gostosa mesmo, pra quê perder a viagem? Já tinha me ferrado mesmo. Eis que desce ela, miraculum, era ela, era a Manuela.

– Desculpa, desculpa, desculpa, foi a Ana Rita, me indicou o ônibus errado, fui pro fim da linha – foi me dizendo logo. – Fiquei com medo de você ter ido embora porque não sabia onde você morava. Demorei muito? Ah, não, uma hora e meia e na chuva, coitadinho!

Bom, não me restou outra alternativa daquela sacanagem feita comigo, fui logo tirando o elmo de cavaleiro, empinando o peito e falando seriamente.

Não foi problema nenhum, por ti eu esperava até à noite. (lembrem-se que não existia nem celular… disponível para consumo como hoje, viram?! Porque nem sou tão velho assim, pô!).

A chuva apenas abrandou o meu calor.  E aí, vamos passear?

– Foda-se! pensei – a honra tava salva mesmo.

Felipe Diniz

PS. Ad beneplacitum ad quem et brevi Manu.

A Porta Invisível 01/06/2010

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             Na minha infância, o mundo sofria constantes transformações ao me deitar. Era a hora de tirar os óculos para dormir e pra quem é forçado a se deitar completamente insone, o olhar sem enxergar, mas visualizar o que cérebro era forçado a ver a partir das dimensões maiores que o mundo é para uma criança, sem dúvida nenhuma, uma escola de sobrevivência e uma experiência vivida intensamente por poucos.

            Ao apagarem as luzes, pois assim se determinava a “hora de todos se recolherem”, na casa da minha avó, me eram possíveis distinguir o mundo a minha volta de duas maneiras apenas, som e visões. Os sons eram, pra mim, regulares e me informavam sobre as rotinas da casa: o relógio de corda da parede tocava as horas pelos seus números de badaladas, intercaladas com duas badaladas, que indicavam os trinta minutos de cada hora. Os adultos dormiam ruidosamente em seus quartos, pois as portas fechadas eram proibidas, o que me permitia distinguir cada ronco pela direção ou pelo timbre de voz, quando se falava dormindo. Minha mãe, invariavelmente chegava entre as onze e a uma da manhã, porta abrindo silenciosamente, passos cautelosos, calçava algum salto. Cozinha, geladeira, nada de fogão, às vezes prato, às vezes direto da panela, quase sempre frio. Depois banheiro, quarto, rede e ronco. Um outro barulho regular era o estalar da mesa da sala. Mesa de madeira clara, forte, estalava, mais ou menos entre uma e duas horas da manhã. Hoje entendo que, sendo o período de menor temperatura, a mesa estalava de acordo com as leis da física de dilatação dos corpos e nunca porque fantasmas se sentavam nela para conversar como eu imaginava, mas nunca os ouvia.

            As visões eram o trabalho de entendimento a partir de dois olhos defeituosos. Por causa da miopia alta, sem óculos, jamais pude vislumbrar com clareza o que era uma sombra. Pra mim, sempre fora algo disforme, inexplicável, móvel e misterioso. Rachaduras na pintura do teto se moviam, ora aumentavam, ora diminuíam, às vezes ondulavam como serpentes ou trilhas repletas de formigas a andarem sem saírem do lugar. Uma mancha de infiltração fundia-se à sombra, só que imóvel eram verdadeiros buracos negros, de onde qualquer forma iria sempre surgir. A tortura aqui era ter a plena consciência que olho enganava o cérebro, e o sentimento se deixava levar.

            Insone que era, passei a adotar aquelas coisas da “noite a noite”, quase como uma prática ritualística para o repouso. Vi eclodirem aos meus olhos e ouvidos verdadeiros universos, físicos e de personagens, mundos e criaturas que talvez uma visão perfeita jamais me permitisse conhecer ou sequer vislumbrar.

            Imagino que a evolução dos sistemas nervosos como fator de sobrevivência, bem como os exercícios de (re)criação de sistemas neuronais cada vez mais eficientes, encerram em si mesmos um estudo de diversidade pouco explorado. É passível de se crer que níveis de percepções diferenciados exijam respostas diferenciadas em seres humanos que ainda estão muito além das respostas iguais das máquinas. Logo, me pergunto em que dimensões se trabalhar os níveis de percepção de outros seres da natureza, que pelas suas diferenças estruturais se sujeitam de forma dissimilar às leis da física e da química? Aqui, acredito que seja a linha para uma das chaves no desenvolvimento mais eficaz da robótica, mas apenas divago…

            Todos experimentamos, diversas vezes ao longo da vida, falhas de percepções. Acredito que saber conviver com a imperfeição própria dos sentidos, enquanto se perdura, é uma forma humana de se explorar mais o universo. Eu corrigi os olhos, não me arrependo, mas paguei um certo preço, pois fechei aquela porta invisível e preciosa dos mundos imaginários da minha infância.

 Felipe Diniz

Salada Mata 30/05/2010

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            Fim de férias, eu já estava me preparando para a volta ao trabalho no Ministério do Meio Ambiente, foram quinze dias de maravilhoso ócio cívico criativo – Sim, enquanto me preparava para voltar a produzir apaixonadamente pelo país, me deleitava em prazerosas leituras e a escrever meus parcos ensaios – quando minha volta à labuta diária foi sabotada, fui brutalmente acometido por uma caganeira e uma dor de barriga (os afetados que me desculpem, mas homens não têm diarreia e não sentem cólicas e nem colites, muito menos os vascaínos).

            Como todo vitimado por este mal estar, tive bastante tempo, sentado, para refletir nas causas que me faziam perder o primeiro dia de retorno ao trabalho e comecei pela física.

            Ora, se algo sai com violência, pensei, é porque algo deve ter entrado e causado algum dano, visto eu não possuir, até onde se saiba algum problema estrutural – mamãe sempre me disse que eu era perfeito de cabo à rabo (literalmente – médicos também e com direito à endoscopia, colonoscopia, ultrassom, raios-x e passes mediúnicos).

            Fui analisar então a história do meu consumo alimentar na últimas 24 horas anteriores à auto-sabotagem e vejamos:

Café da Manhã (Le Dejeneur)

–        queijo quente na chapa (só dois)

–        pão de queijo (uma dúzia, mais ou menos)

–        café preto (meio litro) com leite desnatado (pra não engordar – uma gota)

Almoço (The Lunch)

–        uma simples e delicada carne de sol desfiada com um purezinho inocente de jerimum, arroz e farofa com ovo;

–        uma salada pra não engordar (que fique bem claro para não decepcionar – duas folhas de alface e ½ cenoura ralada)

Jantar (La Cena)

–        pizzazinha média sem borda (pra não engordar) meia Margueritha, que minha filha de dois anos me roubou, me obrigando então a comer a outra metade, que era calabresa acebolada.

 

            Ou seja, não chegara ainda a nenhuma conclusão. Resolvi, então, como último recurso e desesperado, partir para o meu conhecimento em biologia, que é pouco maior que o meu conhecimento sobre docinhos e sobre a vida alheia.

            Com tempo livre no trono de minha Majestade, comecei a relembrar com uma força na cabeça compatível com a força que fazia embaixo, o que fazia de mim um dínamo humano por inteiro. Pensava em cada passo, cada decisão, cada pensamento, cada ação do dia anterior e finalmente descobri! Descobri! Eureka! Foi… a salada! A salada! Só podia ter sido a salada! Como não vi que tinha sido a maldita salada!

            Siga meu raciocínio, leitor, primeira pista, a quebra do padrão: a salada desvirtua o cardápio acima, afora o rótulo ridículo, confesso, do “para não engordar”, ela era crua e fria – o que, por si só, já dá pinta de um quadro de uma assassina perfeita de um desses romances da Agatha Christie.

            Segundo, evolução é uma coisa que opera em qualquer lugar em que haja vida, ou melhor, em qualquer lugar onde haja tempo e espaço e matéria, mas não entremos nisso, vamos estabelecer logo que a evolução operava tranquilamente há gerações de comunidades parasíticas, simbióticas, endotópicas e felizes companheiras do meu intestino (só não havia solitárias, com respeito ao trocadilho, porque deviam ser muitas mesmo). Havia linhagens históricas de bactérias, algumas, imagino eu, com grandes genealogias, talvez até mesmo reais, porque não a existência de impérios ou cidades-estados, ou nações verminosas pelas minha barriga – e datando da época em que eu, criança, devia estar começando a comer areia e iniciando a criação desse microuniverso.

            Acontece que, neste domingo, resolvi que tinha que, além de lavar bem os alimentos, usar hipoclorito e, como não estávamos acostumados, acho que erramos na dose. Como todo mundo sabe, ou pelo menos devia saber, o hipoclorito é quase um alvejante minguado. Resultado: uma hecatombe de proporções devastadoras, uma extinção intestinal comparável à que aconteceu com os dinossauros (respeitando-se as proporções, é claro, a minha foi bem pior) – limpei o histórico das pobres linhagens instituídas por direito no meu bucho, dei reset in the machine, constitui um deserto onde havia exuberância.

            É, certos aprendizados, por respeito à vida, devem ser mantidos.

            A culpa, sem dúvida, foi da salada.

Felipe Diniz

Giuseppe Archimboldo. Vertumnus. 1590-1591.

Pequeno Conto de Amor 28/05/2010

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Enquanto a chuva caia, apertava-me a solidão que se avizinhava. Com ela por sob meus braços, sentia o cheiro do seu calor, nossos suores e o gosto limpo da chuva tépida de um inverno tropical escorriam lentamente pela minha boca tal lágrima que corre pelo veio de um rosto entristecido. Despedíamo-nos.

Seu nome me dizia era Cris, só isso. Podia ser Cristina ou Cristiane ou qualquer outra variação, eu precisava apenas de Cris e isto sempre me foi o suficiente, porque a crença era o primeiro passo da aproximação.

Eu a conheci numa sala de aula à noite, visita de um dia, encanto para uma vida. Voz perfumada e odor de timbre macio, sorriso bonito, agradável presença e graça resumida por qualquer coisa de aveludada consistência em seus passos. Vários assuntos em comum, não era preciso expor nada das nossas vidas. Nossos olhos já nos apresentaram e nem precisamos soar sílabas pra sabermos quem éramos naquele dia; parecia que nos conhecíamos desde quando o mundo um dia nos fora mostrado pela primeira vez.

Saímos, a chuva morna e o vento frio se amavam na atmosfera elétrica de um ar tropicalmente revolto. Sob a umidade de uma marquise achamos a entrada do hotel em que ela estava hospedada. Subimos…

O negrume da noite e os cabelos de Cris, as setas de chuvas à frente das lâmpadas dos postes e um zumbido suave da eletricidade que alimenta a cidade confortando-nos das trevas me lembravam que a eternidade que me prendia naquela realidade era finita praquele momento.

Ela me apertou, respirou fundo uma última vez e me disse: – Tchau! Era só o que bastava, nada mais. Como este conto sobre aquela noite, a confiança se resumiu à crença nas poucas palavras que foram ditas.

Felipe Diniz